Paulo Rocha: Ataque à democracia não passará

Não há dúvida de que a escalada autoritária se deve ao governo estar acuado pelo fracasso, que se traduz em mais de 320 mil mortes por Covid-19
Foto: Alessandro Dantas

Confio na responsabilidade das Forças Armadas. Mas não confio em um presidente que tenta a todo custo eliminar algo caro aos brasileiros: a nossa liberdade. O país está à deriva não apenas por termos um negacionista na Presidência da República, mas alguém que tenta eliminar qualquer resquício democrático da Nação.

A troca de ministros no último dia 29 foi um alerta. As mudanças levaram a pedidos de demissão do ministro da Defesa e – algo inédito por aqui – dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, ao mesmo tempo. O governo Bolsonaro tenta aparelhar politicamente as Forças Armadas do Brasil, em clara afronta ao princípio do republicanismo e em proveito pessoal.

Tal tentativa busca desvirtuar a missão constitucional dessas Forças, que, numa democracia, existem para nos defender de ameaças externas, nunca para funcionar como agentes de repressão política contra a oposição ao governo e ao povo.

E não podemos esquecer o uso recente da Lei de Segurança Nacional, herança da ditadura, para perseguir legítimos opositores políticos e manifestantes democráticos. Também sempre atentou contra a liberdade de imprensa – segundo a Fenaj, a violência contra jornalistas cresceu 105% em 2020, com Jair Bolsonaro liderando ataques. Uma sinalização da escalada autoritária que colide com a Constituição Federal.

E há agravantes. Bolsonaro nutre pouco apreço pelas instituições democráticas, tendo manifestado pública e sistematicamente apoio a ditaduras e a torturadores. É fato notório também que o atual ocupante do Palácio do Planalto não respeita a hierarquia, base do funcionamento da Forças Armadas, tendo se projetado na vida pública subvertendo-a de forma reiterada. Um mau militar, como o definiu Geisel.

Não há dúvida de que essa escalada autoritária se deve ao fato de que o governo federal está acuado pelo seu gigantesco fracasso, que se traduz em mais de 320 mil mortes por Covid-19, na incapacidade de prover vacinas, no abandono da população mais vulnerável, no desemprego elevadíssimo e no desprezo à vida e ao sofrimento do povo brasileiro.

Embora a sociedade brasileira disponha hoje de instituições democráticas mais sólidas, capazes de reagir a aventuras autoritárias, é preciso considerar que o caos sanitário, econômico e social produzido – até mesmo de forma intencional por Bolsonaro – cria um caldo propício para agressões contra a nossa democracia.

Precisamos estar alertas. O atual presidente, um mau brasileiro, não atenta apenas contra a vida biológica dos seus cidadãos. Afronta, acima de tudo, a vida democrática do país. Tentará, mas não passará.

Artigo originalmente publicado no jornal O Liberal